“O caminho do meio”, por Sérgio Coelho

Em artigo publicado no jornal O Globo, o sócio do Galdino Coelho Mendes Sergio Coelho defende que o “discurso totalitário precisa ser superado” quando se trata da política brasileira.

“Não é demais esperar, em primeiro lugar, que esquerda e direita respeitem o diálogo, as divergências e o enfrentamento democrático. Não é possível fazer política em um ambiente de ódio, no qual o debate dos temas verdadeiramente relevantes é substituído pela intolerância de “coxinhas” e “petralhas”, que vêm uns aos outros como a encarnação do mal”,

afirma o advogado em seu texto.

O artigo foi publicado na sessão “Opinião”, na edição de 15 de agosto do jornal O Globo. O texto está disponível para leitura no site do jornal: http://oglobo.globo.com/opiniao/o-caminho-do-meio-19913726


O caminho do meio
Discurso totalitário precisa ser superado

Por Sergio Coelho

A política nacional pós-impeachment jogou luzes sobre um grupo de deputados que a imprensa batizou de Centrão, por não se caracterizar nem como direita nem como esquerda, os dois polos ideológicos tradicionais de poder.

A expressão Centrão deveria, nesse contexto, significar um grupo a meio caminho da direita e da esquerda, mas não é bem assim. No nosso caso, Centrão é apenas um conjunto de congressistas amorfo e carente de ideologia, que pende para um ou para o outro lado ao sabor do vento e dos interesses do momento. É uma pena.

De fato, se existe algo de que o Brasil precisa desesperadamente neste momento — e que pode, sim, ser o bom fruto da gravíssima crise política que atravessamos — é a atenuação das crenças ultrapassadas que separam a direita e a esquerda. Se a convergência total dificilmente será possível, há temas nos quais a história já provou que não se pode insistir, mas que, infelizmente, continuam pautando as divergências políticas no país.

Não é demais esperar, em primeiro lugar, que esquerda e direita respeitem o diálogo, as divergências e o enfrentamento democrático. Não é possível fazer política em um ambiente de ódio, no qual o debate dos temas verdadeiramente relevantes é substituído pela intolerância de “coxinhas” e “petralhas”, que vêm uns aos outros como a encarnação do mal.

Do ponto de vista programático, não é mais razoável que esquerda e direita mantenham posições históricas recheadas, respectivamente, de irresponsabilidade administrativa e intolerância social, ambas insustentáveis em pleno século XXI.

A adequação de pouquíssimos pontos equivaleria a uma verdadeira revolução política e social no Brasil.

Pelo lado da direita, é urgente perceber que a tolerância sexual, religiosa e racial não é uma opção, mas uma realidade e uma imposição legal sem volta. Não há espaço para discriminação de nenhuma natureza em uma sociedade democrática.

O discurso totalitário, por vezes ainda presente, também precisa ser superado com urgência. A democracia no Brasil é um fato consolidado, e o estado democrático de direito não se compatibiliza com a violência estatal ou com rupturas institucionais.

Pelo lado da esquerda, se ainda restava alguma dúvida, os últimos anos comprovaram que não é possível manter o discurso da distribuição de renda sem produção compatível, que as despesas públicas devem ser proporcionais à arrecadação, e que os ocupantes de postos de administração, como os ministérios técnicos e as diretorias de estatais, não podem ser escolhidos com base em critérios políticos ou ideológicos, mas sim de capacidade gerencial.

Estas, como se vê, são realidades tão simples quanto evidentes, que devem ser perseguidas de forma intransigente por todos os partidos e todos os congressistas, sem exceção.

Nesse contexto, a crise política pode ser uma excelente oportunidade para que a sociedade repense seus paradigmas e perceba que não há mais espaço nem para a direita raivosa nem para a esquerda irresponsável e, a partir daí, possa criar um novo caminho, fundado na exigência de tolerância social e responsabilidade administrativa.

Artigo publicado na sessão “Opinião”, na edição de 15 de agosto do jornal O Globo. O texto também está disponível para leitura no site do jornal: http://oglobo.globo.com/opiniao/o-caminho-do-meio-19913726
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